A letra de "Carinhoso", autoria de Braguinha
(Carlos Alberto Ferreira Braga), é uma das maiores obras-primas de nossa música
popular. O recurso utilizado por ele em um trecho complexo da belíssima linha
melódica de Pixinguinha (Alfredo da Rocha Vianna Filho) "Vem, vem, vem,
vem" (pois o tempo melódico não comportava mais do que monossílabos), é
coisa de gênio. Dois mestres de nossa música popular respeitados e consagrados
em todo o mundo. Quando Louis Armstrong, um dos maiores nomes do jazz dos Estados
Unidos, esteve no Brasil, seu maior desejo foi conhecer Pixinguinha.
* Nota:
Pixinguinha fez a melodia de "Carinhoso", em 1917,
mas acabou esquecendo-a, embora tenha gravado-a, no ano de 1926, em ritmo de
polca por uma banda com um ritmo mais acelerado. Em 1936, a cantora Heloísa
Helena pediu a Braguinha para por letra na melodia, pois queria cantá-la num
recital do Palácio do Catete. Como o espetáculo seria alguns dias depois e ela
precisava ensaiar a música, Braguinha fez a letra nessa mesma noite. A canção
fez sucesso no recital e o então iniciante Orlando Silva gravou-a em um ritmo
mais lento e com uma interpretação mais romântica, em um compasso de
samba-canção. Foi um sucesso estrondoso da noite pro dia. Dessa época em
diante, "Carinhoso" já teve mais de 300 regravações no Brasil e
exterior. Sendo considerada nosso segundo Hino Nacional.
PS - Uma vez, vi Braguinha saltar de um táxi bem na minha
frente, na Av. Rio Branco. Trajava um impecável terno de linho branco e usava
uma bengala de marfim. Não perdi tempo, dirigi-me a ele e disse-lhe que era um
prazer indescritível poder dar-lhe um abraço e apertar-lhe a mão. Eu era bem
jovem, aí pelos meus 20 anos, ele ficou meio surpreso e falou: "O prazer é
meu. Não sabia que eu ainda era lembrado pela juventude". Claro que sabia,
conversamos um pouco e começou a juntar gente, ele sempre muito amável com
todos. Depois de um tempo e de outros apertos de mão, entrou num edifício.
Aquele dia nunca mais esqueci.

